É lastimável que exista de fato - tão fatídico - esse tipo de história... Sei, porque vivi uma assim. Pessoa de grande inocência, garota do sorriso fácil, mas de uma alma recôndita e de um coração não menos excepcional fazendo de um rapaz tão igual a sua excessão; dedicando sagrado tempo, sagrados sentimentos, pulsares cardíacos inigualáveis a alguém que não lhe dedicava mínima consideração - mas parecia um gostar tão mútuo - e na primeira oportunidade, da mais incerta, desistiu, go way. Oásis de um deserto condenado a eternas - e apenas - miragens.
Fui feita de otária por muito tempo sem saber. Apesar disso, a verdade é que foi a época em que mais me senti viva. Porque acreditava na palavra das pessoas, em boas intenções, em humanidade, em bom caráter. Eu era capaz de acreditar, sem hesitar. Sentimentos puros eram reais e poderiam dar certo. Sentimentos puros poderiam nos levar por um caminho de felicidades. Era tão simples! Amar era tão simples e intenso e bonito e excitante e... supremo: era como ter em mãos a passagem para o céu; certeza de felicidade, garantia de salvação, vida sem arrependimentos e dúvidas, tempo aproveitado com o melhor em seu máximo. Plenitude. Era a sensação de plenitude. Eu me sentia viva porque, apesar de ter sido uma farsa para ele, foi real para mim e eu fui feliz independente da insuspeita verdade que eu, nem em piores pesadelos, não poderia imaginar. Eu acreditava. Até que tudo veio abaixo. Aquele que me ensinou o bonito da vida - me salvando - estava agora me ensinando a falsidade do bonito - me condenando. Infelizmente até hoje não consegui sentir a vida tão intensa quanto senti naqueles tempos. Perdi minha capacidade. Simplesmente não consigo acreditar em ninguém mais. Sou incapaz de prever a mim qualquer gostinho de felicidade, de ver beleza tão pura assim na vida... tudo há que se desconfiar, nada é tão digno de confiança. Não há descanso, é assim mesmo, tenso. Descobri como as pessoas são, seu gênio animalesco e perverso, muitas vezes. Percebi que todos são tão animais, agindo por instinto como predadores, disputando território e soberania sobre os outros. Já não acredito na supremacia do afeto e da humanidade sobre o instinto irracional. As relações são tão pequenas, tão limitadas, tão movidas a coisas irrelevantes, em que não há afeto genuíno. Descobri que ter o coração ingênuo como tive é péssimo, descobri que acreditar que alguém possa ser tão transparente quanto eu fui é ilusão. Me sinto anormal, me sinto sozinha, defendendo uma causa perdida. Não só minha causa mas eu me sinto uma espécie perdida em outro planeta, porque nesse aqui não há "gente", não há encaixe comigo. Aonde quer que eu vá, sei que vou encontrar "predadores", sei que vou encontrar "danças de acasalamento", "disputas de poder", "jogos de interesses" dos mais diversos - interesse por "beleza", interesse por "números", dinheiro ou popularidade, interesse por influência, interesse egoísta, interesse ao "comum desinteressante" (pleonasmo intencional), tão lastimável - tão lastimável! Sei que vou encontrar muito disfarce... animais se fingindo gente, vice-versa, tanto faz, é lastimável do mesmo jeito. Não tenho esperança, não espero um comportamento humano das pessoas e tudo é tão previsível. Contanto me recuso a fazer parte desse mesmo comportamento. Não aceito essa condição pra conseguir companhia... como uma defensora de uma causa perdida.
Chega a ser drama-cômico saber que todos vão ter que aprender o quanto realidade é crua, e a maioria de um jeito ruim. E então é isso que dizem ser experiência, aprendizado. É violento. Você se machuca por ser bom demais, por ser além e murcha pra se adequar à realidade. Cortam suas asas sem cerimônias. E de alguma forma você acaba cortando as asas de alguém por já não acreditar que ela possa alçar vôo com você. É um ciclo que torna difícil achar pessoas inteiras. Há muitas pessoas experientes, pessoas murchas, machucadas e consentidas. Não pensam em voar, em alcançar mais alto, em poder contar com alguém de verdade, em gostar de verdade, porque aprendemos que isso prende, cria dependência, se abre mão da "moda" e é a longo prazo, e todos temem a mesmice... ninguém tem certeza do que quer de verdade pelos próximos 70 anos. Se contentam com o baixo, porque aqui tudo é passageiro, não há perigo de se decepcionar, não há apego e pretendem apenas satisfação carnal e uma esporádica massagem no ego - todos agem como animais porque é justamente isso o que esperam dos outros, questão de adaptação, comodismo, aceitação talvez... agir como animal é ser o otário que corta e não o otário que é cortado. "Os que se adaptam sobrevivem".
Cortaram minhas asas. Cortaram minhas asas, vejo só! No entanto não esqueci como é tão melhor voar. Talvez por isso eu insista em não me adequar aqui. Vou inventar moda, praticar base jump, sei lá. As coisas, as ideias, as pessoas mudam. A memória não. Sei que existe coisa melhor que esse canibalismo. Não acredito na beleza desse mundo, dessas pessoas, mas tenho certeza da minha beleza, do que tive por dentro. Aquilo, não tenho dúvida, foi real. Quanto à experiência, foi dolorido. A história que me marcou para o resto da vida, como nenhuma outra até hoje, sem dramatizar. É uma pena que não consegui dizer tudo que ficou engasgado, coisas que ele deveria saber, não pra eu me sentir justiçada, mas para que ele percebesse quem ele é, quem ele decidiu ser através das atitudes dele. Ser o que se abomina ser. Queria muito ter tido esse punho ou uma oportunidade posterior pra dizer tudo, mas fiquei desfalecida por muito tempo... arrisco a dizer que até hoje, depois de um ano, ainda estou juntando os caquinhos que me tornei, sem cliché. Ainda não consegui encontrar palavras e expressões suficientes pra fazer alguém entender o tamanho da decepção, da falta de chão, da desilusão que tive com todas as lições que aprendi dessa história. Isso não envolve simplesmente um romance insólito adolescente, uma amizade quebrada. Isso envolveu uma completa análise da vida, das pessoas e sua capacidade, da realidade, do porque o planeta está em colapso, porque tanto sofrimento nesse mundo, do porque fica mais difícil conhecer a felicidade de que tanto falam, do que significa ser forte com tudo de ruim a que estamos expostos. Tudo por causa de milhões de pessoas agindo por instinto em busca de seus próprios egoístas e gananciosos interesses, por causa de milhões de interesses espaçosos se colidindo quando há um espaço limitado para cada um e isso deveria ser respeitado, por causa de seres incapazes de raciocinar que a ascensão de um significa o detrimento de outro... que a massagem no seu ego significa o coração quebrado de quem confiou em você. Vejo esse cenário como de uma guerra onde cada um é por si. Isso me tornou uma completa andarilha à procura de algo que eu nem acredito mais.
No fim me vêem como uma derrota que será eliminada por não aceitar entrar no jogo, por não se adequar (como diria Darwin). Eu sinceramente não vejo toda essa falta de humanidade como evolução, isso é o reflexo da parte mais primitiva que temos, isso é regressão. Vou vivendo ignorando tudo isso e falo mais nada, só observo a previsibilidade de tudo... Não me vejo como derrota e sim como uma raridade...






